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sábado, julho 25, 2009




Fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.


José Luis Peixoto - Criança em Ruinas

quarta-feira, junho 20, 2007

Um sorriso na cara


Vou sair a porta da rua com o coração ao alto, a segurar o fio, e o meu coração a rir lá em cima. Amanhã, vou dizer bom dia a toda a gente. Não interessa que ninguém responda, não quero saber.

Depois, quando for almoçar, vou sentar-me num jardim, onde as crianças brinquem e os ve-lhos joguem às cartas, e vou contar as folhas novas e os rebentos que começam a nascer.

Amanhã, quando alguém falar comigo, vou ser doce como mel e afável como um gato aninhado à lareira. Amanhã, vou reparar em cada um dos pormenores do caminho que faço todos os dias e nunca vejo nada, nunca reparo em nada.

Vou olhar as roupas estendidas nas cordas, a dançarem ao vento. E imaginar quem lá mora, e sonhar a vida por detrás das cortinas.

Vou apanhar o eléctrico 28, para poder lamber Lisboa. Para saborear os cheiros e espreitar as praças e ruelas. Vou fechar os olhos quando o eléctrico descer a caminho da Baixa,a caminho do rio, e sonhar que vou mergu-lhar no Tejo e falar com os peixes e encontrar caravelas perdidas e sereias encantadas.

Amanhã, vou escolher com cuidado e desvelo a roupa que vestirei. Vou pôr um lenço garrido ao pescoço, vestir um vestido com flores.

E depois, quando o final do dia abordar a cidade, vou sentar-me num café, ali para o Castelo, ou em Santa Catarina, e saborear um gelado, mesmo que esteja frio ou chova.

E depois, quando finalmente meter a chave à porta, cansada e saciada, não vou mais chorar por a casa estar vazia e morta sem ti.

Luisa Castel-Branco