
Vou sair a porta da rua com o coração ao alto, a segurar o fio, e o meu coração a rir lá em cima. Amanhã, vou dizer bom dia a toda a gente. Não interessa que ninguém responda, não quero saber.
Depois, quando for almoçar, vou sentar-me num jardim, onde as crianças brinquem e os ve-lhos joguem às cartas, e vou contar as folhas novas e os rebentos que começam a nascer.
Amanhã, quando alguém falar comigo, vou ser doce como mel e afável como um gato aninhado à lareira. Amanhã, vou reparar em cada um dos pormenores do caminho que faço todos os dias e nunca vejo nada, nunca reparo em nada.
Vou olhar as roupas estendidas nas cordas, a dançarem ao vento. E imaginar quem lá mora, e sonhar a vida por detrás das cortinas.
Vou apanhar o eléctrico 28, para poder lamber Lisboa. Para saborear os cheiros e espreitar as praças e ruelas. Vou fechar os olhos quando o eléctrico descer a caminho da Baixa,a caminho do rio, e sonhar que vou mergu-lhar no Tejo e falar com os peixes e encontrar caravelas perdidas e sereias encantadas.
Amanhã, vou escolher com cuidado e desvelo a roupa que vestirei. Vou pôr um lenço garrido ao pescoço, vestir um vestido com flores.
E depois, quando o final do dia abordar a cidade, vou sentar-me num café, ali para o Castelo, ou em Santa Catarina, e saborear um gelado, mesmo que esteja frio ou chova.
E depois, quando finalmente meter a chave à porta, cansada e saciada, não vou mais chorar por a casa estar vazia e morta sem ti.
Luisa Castel-Branco
3 comentários:
Linda * :)
Muito bom
Gostei de perceber esse optimismo!
Beijos
ohhh...bem podia tentar...não ia resultar!
Gosto de te ver animada........
beijinhos amiguinha q tanto adoro!
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